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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Realengo, onde os repórteres não tem vez.

São 11:42... Há uma hora e meia soube dos acontecidos em Realengo, bairro da zona Oeste do Rio de Janeiro. Desde então estou acompanhando os fatos alternando os canais numa tentativa de obter informações diversas. Contudo, a ignorância parece reinar na TV brasileira. É claro que sei que não se pode esperar uma cobertura adequada no calor dos acontecimentos, mas não aceito também que se fale qualquer coisa só para ocupar espaço.
Nunca pensei que diria isso, mas nessas horas acho que preferiria ouvir o Datena e o Mister Escraaaaaacha. Porque estes, embora sensacionalistas, ao menos parecem ter certo conhecimento de áreas "problemáticas" nas principais capitais brasileiras. E estariam bradando por segurança ao invés de repetirem que isso é um caso isolado.
"Uma única ação isolada não move a necessidade de instalar um novo sistema de segurança que mobilize todas as escolas." Disse o, até então muito sábio, Rodrigo Pimentel. UM ÚNICO CASO ISOLADO??? Em que planeta esses repórteres e comentaristas vivem? Certamente no planeta Manoel Carlos... com suas novelas no Leblon, levando seus filhos para o Santo Inácio, São Bento ou Escola Anglo Americana!
Quem destes já desceu do pedestal e descobriu que além do seu umbigo existe pobreza, fome, loucura e uma infinidade de problemas que não dizem respeito a qual sapato combina com meu Dior ou minha maquiagem está boa; poderia apontar rápido alguns casos de atos de violência dentro de escolas do Rio de Janeiro. Seja contra alunos, seja contra funcionários. Seja dentro da escola, seja vindo de fora dela.
O fato é que alunos e funcionários não estão de forma alguma seguros dentro das escolas do Rio e, creio eu, de nenhum lugar do nosso país.
"Há um sistema de detecção para saber quem entra armado nas escolas?" Eu ouvi isso??? É risível! Será ingenuidade ou falta do que falar? Não há sistema nem para saber quem entra e quem sai de uma escola! Se você se apresenta com educação e fala qualquer coisa, você pode entrar. Se você entra bêbado empurrando todo mundo, você pode entrar. Se você entra escondido, só vão saber se te virem passeando dentro da escola.
Não há ninguém treinado ou cargo específico. Os porteiros nunca passaram por um curso e, diante da falta de funcionários, muitas vezes são realocados para outras funções. Os portões ficam entregues. Entra e/ou sai, quem quiser!
E aqueles que trabalham em uma escola só contam consigo mesmo e sua fé para conseguir sobreviver dia após dia. Viciados, criminosos, bêbados, psicóticos, passam todos os dias por todas as escolas. Mas somente os repórteres não sabem disso. Por quê??? Porque ninguém nunca ouve os professores, porque todos acham que eles só sabem reclamar de barriga e bolsos cheios. Porque a excelentíssima Secretária de Educação está em Washington. Porque o SEPE só aparece na época da Database. Porque os próprios professores não se mobilizam, não se revoltam, não se unem!
Mas e agora, que crianças inocentes foram mortas? Será que agora vão dar atenção aos nossos medos e anseios? Será que agora vão ouvir funcionários e professores que já se sentiram ameaçados e coagidos? E aqueles que já foram agredidos física ou verbalmente? Que tiveram que lidar com esses maníacos em potencial, armados ou não? Será? Eu, particularmente, não acredito. Não sou pessimista, mas essa NÃO é a primeira vez, como insistem os repórteres. Não é! Alunos entram armados em escolas! Um aluno já deu um tiro em uma escola na Urca. Na Urca!!! Bairro nobre da Zona Sul. Vocês conseguem imaginar o que ocorre na Zona Oeste? Na Baixada Fluminense? Eu consigo...
Esse não é um crime “americano” como querem nos vender. Não acreditem nisso!!! Chacinas são nossas, sim! Basta abrir o jornal e ler quantos são exterminados só no nosso estado!!! Não preciso nem me voltar ao passado e citar casos notórios como Candelária...
Parabéns, Secretária de Educação que está em Washington, eles precisam mais da senhora aí. Continue ouvindo professores e funcionários das escolas. Parabéns à TV, porque vocês conseguem tornar a tragédia maior ao não darem o devido tratamento, ao transformarem isso em um espetáculo e ao não mobilizarem ninguém no sentido de mudança, mas apenas fazerem os crédulos aceitarem o "caso isolado".
Vergonha desse país, vergonha dessa cidade, medo das pessoas que se escondem no seu mundinho e nem se esforçam para saber o que se passa ao seu redor. Sinto revolta e me sinto derrotada. Porque tudo continuará como sempre... mais uma vez, na Cidade Maravilhosa.